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Ela pega a primeira caixa de papelão e começa a encaixotar seus discos. Ela está de mudança, por dentro e por fora.

Quantas coisas ela tem, mas não são dispensáveis. Cada pertence carrega consigo uma lembrança, uma alegria, uma vitória, um marco em sua vida.
No meio dos discos encontra uma joia, um disco sem capa, sem letras, perdido no meio dos seus pares.

Ela põe o disco na velha vitrola e ouve com atenção, apenas para identificar qual era o artista, as músicas.

E então uma voz fala com ela, parece vir de dentro, mas vem da vitrola: “Óh Deus, tu és o meu Deus forte, a minha fortaleza. Minha alma tem sede de ti Senhor… debaixo da tuas asas encontro abrigo”. 1

“Como são verdadeiras essas palavras!”, ela pensou. Sabe quando você quer falar algo e não encontra as palavras, e aí vem uma música e diz tudo? Foi assim com ela naquele momento.

Ela continuou a ouvir e a dizer aquelas palavras em voz alta: “Tantas coisas pra pensar, tantas coisas pra lembrar. Algumas coisas pra sorrir, muitas outras pra chorar… quem vai ouvir a minha voz? Quem vai enxugar as minhas lágrimas?” 2

Aquele disco não era dela, mas as músicas pareciam ser de sua autoria. Continuou a cantar: “Somos jovens que crêem no Deus vivo, que enviou o seu filho para nos salvar. Aleluia!” 3

Lembrou da sua vida, de quem era há alguns anos, da mudança que já tinha ocorrido dentro dela e de outras pelas quais estava passando naquele momento. “Estaria eu em eterna mudança?”, pensou.

Pegou outro disco e posicionou a agulha no lugar exato onde o cantor falava:

“Tapeceiro, grande artista, vai fazendo o seu trabalho.
Incansável, paciente no seu tear.
Tapeceiro não se engana, sabe o fim desde o começo.
Traça voltas, mil desvios, sem perder o fio.

Minha vida é obra de tapeçaria, é tecida de cores alegres e vivas que fazem contraste no meio das cores nubladas e tristes.
Se você olha do avesso, nem imagina o desfecho.
No fim das contas, tudo se explica, tudo se encaixa, tudo coopera pro meu bem.

Quando se vê pelo lado certo, muda-se logo a expressão do rosto. Obra de arte, pra honra e glória do Tapeceiro.

Quando se vê pelo lado certo, todas as cores da minha vida,
dignificam a Jesus Cristo, o Tapeceiro.” 4

Era impressão dela ou tinha mais alguém na sala? Seria o Tapeceiro sussurrando aos seus ouvidos? Nem percebeu que as horas passaram depressa. Quando a companhia é boa o relógio não impera.

Guardou de volta os discos na caixa preparando-se para as mudanças que viriam adiante.

Por fim cantou: “Madrugada, foge o sono, e é tão bom saber que estás aqui, Senhor! … Sem ti a vida é vã, sem razão passará.” 5
Aline Cândido

1. Trecho da música “Deus Eterno”, da Oficina G3
2. Trecho da música “Quem”, da Oficina G3
3. Trecho da música “Naves imperiais”, da Oficina G3
4. Trecho da música “Tapeceiro”, de João Alexandre
5. Trecho da música “Manhã”, de Stenio Marcius, regravada por João Alexandre