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Socorro! – ela gritou. Tão alto quanto pode, que dentro de si sentiu reverberar o grito em cada órgão como se fossem tambores.
Socorro! – disse outra vez, dessa vez com a voz embargada e lágrimas descendo pelo rosto.

Olhou para todos os lados, procurou saídas mas se viu sozinha no meio da estrada. A poeira ao redor a impedia de ver (e voltar) pelo caminho que tinha vindo. À sua volta apenas galhos secos e terra rachada. Nenhum sinal de vida nem da alegria dos primeiros anos.
A paisagem se transformou e ela nem percebeu, tão ocupada que estava em somente seguir em frente, sem pestanejar.
“Aos fracos a desistência, eu vou prosseguir”, ela pensava.
Até que nesse dia, seu relógio parou, suas pernas travaram e ela deixou de caminhar.
Sentou, como se pudesse descansar um pouco e apreciar a paisagem depois de sua longa caminhada.
Mas primeiro veio o silêncio. Depois o eco devolveu-lhe o grito de socorro.
Estava só. Viu seu rosto refletido (e distorcido) numa pequena poça no chão. Os anos lhe pesaram no rosto e as lembranças que aos poucos foram colonizando sua mente a faziam ainda mais infeliz.

Repentinamente dormiu, tão pesado quanto à pedra que lhe servia de travesseiro.

Acordou com pingos grossos em seu rosto. Era chuva, chuva de Graça que vinha do céu. Não procurou abrigo, queria se molhar completamente e ver escorrer toda a sujeira que tinha acumulado naquela estrada empoeirada.
Ficou imóvel por um tempo, apenas sentindo a chuva lavar-lhe a alma. E foi então que ela descobriu a saída: De joelhos. Sim, caminhando de joelhos ela sairia daquela estrada na direção certa.

Para ler ouvindo “On my knees”, de Nicole Coleman-mullins
Versão em português, “De joelhos”, interpretada por Eduardo e Silvana.

Aline Cândido